quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Os Dois Lados do veneno - Capítulo 5


Depois de ficarmos conversando na cama, An se aproximou de mim e se sentou. Deitei, então em cima de seus joelhos e Jú, um pouco mais afastada, ouviu Francy chorar. Ela mesmo se ofereceu a ir buscá-la. Nesse momento em que Jú saiu, An se inclinou para tirar um beijo de mim. Quando Ju entrou com a nenê no colo, nos viu e riu alto. Paramos e começamos a rir também. Logo, Jú deu Francy para An, que a amamentou. Jú a pegou de volta e a pôs sentada na cama. Ela, se esticou e com dificuldade, se ajustou como se fosse engatinhar. Jú, querendo a ajudar, ficou chamando-a e ela correspondeu, dando suas duas primeiras 'passadas'.Nós três ficamos igual umas bobocas rindo por um bom tempo. Já de noite, meus cortes começaram a latejar e doer. Jú ligou para sua mãe, e ela, disse para passar álcool, par desinfetar. Depois, coloquei gaze e atadura nos braços e na perna. Na hora de dormir, Ju dormiu comigo e An, como iria sair bem cedo, dormiu no outro quarto menor. De manhã, acordei com café na cama. Tinha suco, dois sanduíches e barrinhas de cereal. Eu e Jú comemos e depois levantei para ir ao banheiro. Tirei a atadura que estava com sangue. Fui tomar banho e quando saí, pus de novo álcool pra desinfetar e uma pomadinha pra dor e inchaço. Pus a atadura nova e me vesti com uma roupa de frio.

Juliana estava de banho tomado e tinha trazido umas roupas dela em sua mala, pois ficaria ali por mais três dias. Fui ao quarto que Anny dormiu e estava tudo arrumado, com um bilhete na cama.

"Valentina, fui trabalhar. Hoje fico de plantão. Volto depois de amanhã, porém vou pra casa de minha mãe. Nos vemos no próximo final de semana" 
 Depois de ler, eu e Jú fomos conversar.

Jú: Tina, você não acha que é muito cedo pra namorar com a Anny, não?

Eu: Porque você acharia isso?
Jú: Poxa Tina, você conheceu a menina tem uns três dias...
Eu: Só estou correndo atrás do tempo perdido, Jú...
Jú: Mas também não precisa ser assim... Só acho que você tá insegura demais e ficou cega quando viu que a Anny estava aqui, dando mole pra você e agora tá confiando cegamente em alguém 'errado'...
Eu: Não acho que ela seja o alguém errado. Poxa, Juliana, pelo menos uma vez na vida, confia em mim!
Juliana: Mas é que eu tenho medo de outro alguém chamar a sua atenção e você me substituir. Eu tenho medo desse outro alguém ser a Anny. Acontece que é isso.
Eu: Mas Ju, não é pra tanto. Eu te amo e você sabe disso. Nós somos amigas, esqueceu?


Juliana sorriu e então, fomos pra sala conversar. Ela disse que tinha uma festa de noite pra ir e perguntou se eu queria. Não estava a fim de ir, mas ela pediu tanto que eu concordei. Chegada a hora, me arrumei e pus a roupa. Esperei Juliana e logo saímos. Fomos no carro dela. Era uma boate, bastante agitada. Pelo vidro do carro olhei e olhei para ela. Ela olhou pra mim e sorriu. Rimos, sabe? Rimos de nada, ou talvez, de tudo... 




terça-feira, 23 de julho de 2013

Os Dois Lados do Veneno - Capítulo 4


Ali, vi que eu não tinha tomado banho, então eu e Anny, fomos nos banhar. No meio do banho, nos beijamos e uma ensaboou a outra. No final, eu emprestei uma roupa para ela. Me arrumei e me maquiei. Anny também. A Francielly, estava dormindo, só que dessa vez, no sofá. Arrumamos a casa, depois, fizemos comida juntas, e já terminando, Juliana abriu a porta e me viu beijando Anny. Disfarçou e colocou a bolsa no outro sofá que não estava Francy e fechou a porta. Lavei a mão e corri para abraçar Juliana.

Eu: Jujuba, deixa eu te apresentar as minhas vizinhas: Essa é a Anny e a dorminhoca no sofá é a Francielly -Sorri.
Juliana: 
Prazer! - Disse a Anny e olhou para Francy.

 Abracei a Juba, o mais forte possível e sussurrei ao ouvido dela: Estou grávida! - Ela olhou espantada pra mim e me levantou no ar. Sorriu e me rodopiou. Naquele momento, pude perceber que a Anny, sentiu um pingo de inveja da nossa felicidade, e continuou a cozinhar.

Juliana: Mas que maravilhoso, Valentina! Estou feliz por você! - Gritou me rodopiando e sorrindo.
Eu: 
Ai Juliana, me põe no chão! - Gritei meio tonta.
 
Quando ela me pôs, corri para o banheiro e vomitei no chão, pois não deu tempo de levantar a tampa. Terminando de vomitar, escovei meus dentes e saí do banheiro com a Jú. Anny sem reclamar, lavou o banheiro para mim. 

Fiquei conversando com a Juba no sofá, até a Francy acordar e começar a chorar. 

Grita Anny do banheiro: Valentina, pega ela pra mim?
Eu: Tudo bem, titia tá aqui.- Falei levantando, me referindo e indo em direção da criança.

Peguei Francielly no colo, fiquei ninando-a enquanto falava com Jú, sobre minha gravidez, os cuidados que deveria tomar e como minha vida estava ferrada até ali. Francielly estava inquieta e eu não sabia oque fazer... Juliana levantou e resolveu pegá-la. Sentindo o aroma de Jú, a pequena estava se acalmando e então, começara a prestar atenção nos olhos de Jú. Fiquei observando as duas. Aquilo era muito bonito. Quando Anny saiu do banheiro, sentou do meu lado e eu ajeitei seu cabelo, que estava todo bagunçado. Seus olhos cor-de-mel, me deixavam com vontade uma vontade desesperada de largar tudo e ficar com ela, só com ela. Aqueles olhos cor-de-mel me tiravam o fôlego, conseguiam me tirar da realidade por longos minutos. Aquilo me fazia bem. Muito bem. Sua pele clara com jeito feminino, era um convite a sua sedução. Seus lábios carnudos e nutridos, estavam a me chamar. Olhei então para seu cabelo. Era longo, sedoso e cuidado. Porém estava preso, então soltei-o. Senti seu aroma que me lembrava uma flor perdida em um jardim morto e seco. Sim, esse jardim era eu. Aproximei então meu lábio do dela e dei um leve beijo, até que a Juliana forçou uma tosse, querendo dizer "Hello, eu ainda estou aqui. Respeito!". Por isso, Anny interrompendo o 'Momento paixão', foi pegar sua filha no colo de Juliana e Ju, quebrando um pouco o clima constrangido, falou.

Ju: Anny, sua filha é um anjinho. Super delicada!

Anny: Ah, obrigado! Ela gostou de você... - Disse, pondo seus cabelos por trás da orelha e pegando Francy.- Mas - mudou de assunto -, você te sorte de ter a amizade de Tina. Ela é realmente uma pessoa especial!
Ju: Nos conhecemos desde minha primeira tatuagem, há 7 anos! Mas pelo jeito... Quem arranjou uma namorada foi Tina... e.... você, não é? - Sorriu sem jeito e sentou do meu lado. Apoiei minha no joelho de Jú.
Eu:
Bom, não é bem um namor...- Disse quando fui interrompida pela Anny.
Anny:
Na verdade, é um namoro sim!

Sorri e olhei para Anny. Francielly começou a chorar, então An (apelido que eu nomeei-a), deu de mamar a pequena. Eu, fiquei observando e depois peguei Francy e a pus para arrotar. Foi uma sensação boa aquilo. Depois, quando a bebê se acalmou, deixamos-a deitada na cama e fomos jantar. Conversamos sobre os esquemas de visita pra mim e depois fomos deitar na cama do quarto do meio.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Os Dois Lados do Veneno - Capítulo 3

Ao acordar, tudo estava girando, e uma mulher toda de branco, estava limpando meus cortes da perna e os do braço, estavam enfaixados. Ela sorriu para mim. Até que eu falei.

Eu: Cadê a Juliana? Quem é você?
 Mulher:  Foi na loja aqui da esquina, comprar uns alimentos para você. A minha filha daqui a pouco volta. Eu sou a mãe dela... Me responde só uma coisa, você não come e nem bebe desde que horas?
Eu: Desde ontem de noite.
Mulher: Minha querida, você não pode fazer isso. Agora descanse. Vou passar umas três semanas aqui para cuidar de você e impedi-lá de se cortar mais uma vez. Pode deixar, que eu já combinei tudo com a Jú, e nós decidimos não contar nada aos seus pais, pois é isso que você quer. Certo?

Fiz sinal positivo e fiquei quieta vendo a facilidade que ela tinha para tratar de ferimentos. Ela se levantou e foi até a cozinha. Até mim, trouxe uma panela fervendo e apoiou no chão. Mergulhou lá a gaze e foi tratando o ferimento. Senti muita dor e gemi. Ela olhou para mim e eu fiz umas caretas estranhas. Nesse momento, a Jú vinha abrindo a porta e trazendo uma penca de bolsa. Ela olhou pra mim e sorriu, fiz uma expressão delicada, e ela foi pondo as coisas na cozinha. Veio até mim e me deu um beijo na testa. Senti aquele lábio doce que estranhamente, me fazia sentir segura. Estava tudo muito quieto, até que Juliana quebrou o silêncio:

- Tina, se preocupa não. Você está segura com a dona Carmem  aqui, pode deixar que ela vai cuidar muito bem de você! E conte comigo também. Ficaremos aqui por umas 3 semanas, depois minha mãe retorna ao trabalho, e eu tenho que voltar a estudar... Tudo bem?

Quando Juliana terminava de falar, a dona Carmem, terminava de fazer os curativos e se direcionou para a cozinha para jogar os restos de pano fora.

Eu: Tudo bem.

Dona Carmem, trouxe até mim uma calça bem larguinha e leve para eu usar. Pus a calça e me deitei. A blusa que eu estava, já tinham arrancado as mangas. E como estava frio, Juliana tinha pego um edredom e se sentou no sofá. Logo após, nos cobriu e ficamos vendo TV. Cerca de meia hora depois, dona Carmem veio até mim com uma sopa bem rala. Me sentei e comi tudo. Estava uma delícia! Mas confesso, a fome era muita... A tarde eu dormi praticamente toda, e a noite eu passei chorando. Assim se passou as 3 semanas: curativo, TV, comida, banho, sono, choro... Minha vida já tinha parado. Na terceira semana, Jú estava de partida com dona Carmem. Agradeci por tudo e ela disse que tinha bastante sopa na geladeira e que era para eu comer umas frutas que ela havia deixado para mim. Disseram que na próxima semana viriam e me ajudariam. Concordei com tudo, mais não fiz nada do que elas pediram. Confesso que depois que elas foram, eu sói chorei, chorei, chorei, chorei....  Chorava e não levantava da cama pra nada, ali eu fazia minhas necessidades básicas, não sentia sede e muito menos fome. Meus machucados só pioravam, não tinha mais oque fazer com eles. Até que uma pessoa enviada de Deus, veio até mim.

Ouço a campainha tocar.

Uma voz grita:
Olá, sou sua vizinha daqui da frente... Posso entrar? A porta está encostada...
Eu: Fique na sala, já vou...

Me levantei da cama um pouco zonza, vi tudo girar. Gritei por ajuda e desmaiei.
Quando acordei, estava no sofá e a suposta vizinha na minha frente sentada. 

Vizinha: Você desmaiou. Oque tá acontecendo com você? Eu nunca mais tenho te visto na rua nem pela janela. Está tudo sempre trancado. Oque você tem? Eu quero te ajudar...
Eu: Eu, eu... eu tô bem, não preciso de nada eu só... - Tentei me levantar, mas quando me levantei, corri para o banheiro e vomitei.
 Vizinha: 
Meu Deus, calma, eu tô aqui. Como você se chama ? Eu me chamo Anny- Correu a vizinha entrometida para o banheiro me ajudar.
Eu: Me chamo Valentina. - Respondi depois de tanto vômito. 

Minha sorte naquela hora, que deu tempo de chegar no banheiro, se não "adeus carpete novo". Quando aquilo tudo parou, olhei para Anny. Ela era linda! Seus olhos eram cor-de-mel e sua boca parecia macia. Seus cabelos sedosos, me seduziram e eu repentinamente sorri. Vi que nela, havia uma coisa que me pertencia.Não sabia oque era. Mais uma certeza havia comigo: Ela me pertencia. Aquela harmonia, me pertencia.
Anny: Você está bem?
 Eu: Melhorando... Estou farta de fome. Não como há uma semana - Respondi, olhando para baixo. 
Anny: Espere um pouco. Tome um banho, enquanto isso, dou uma passada aqui em frente, na minha casa e pego um lanche para comermos e trago minha filha para você ver. -Concordei-


Enquanto ela foi para a sua casa, eu tomei banho, coloquei uma roupa linda e me arrumei. Sobrou um tempo pra organizar a casa e meu quarto que tava um nojo. Fiz. Até que não ficou nada mal. Quando terminei de arrumar tudo, me sentei no sofá e fiquei esperando por ela. Até que a campainha tocou, e eu atendi. Era ela. Estava linda! Tinha tomado banho e trocado de roupa. estava com uma vasilha na mão. Sorri para ela e ela sorriu para mim. Sentamos no chão da sala e ficamos comendo bolo enquanto viamos um filme que ela pusera para nós. O filme era um romance lésbico. A sua filha Francielly estava dormindo no quarto dos fundos. Comemos tudo e no meio do filme, no chão ela se aproximou de mim e eu sorri. Até que ela me abraçou e eu me virei para ela. Ela com seus doces e macios lábios, me roubou um tímido beijo. Retribuí com um beijo bem picante e ali, no chão deitamos e ficamos nos beijando por cerca de meia hora, até que ela começou a arrancar minha roupa, e então o clima foi esquentando. Até que fizemos amor. Amor bem gostoso. Amor recheado de tesão.


 Quando terminamos, ela me perguntou porque tantos cortes e quando fui responder, fiquei muito enjoada e corri para o banheiro. Vomitei muito. Até que quando estava indo para a sala, um enjoo veio muito forte e então desmaiei. Acordei com os barulhos de Francielly. Anny estava preocupada e disse que eu poderia estar grávida. Eram todos os sintomas: Enjoo, desmaio, desânimo... Eram todos eles. Me espantei e falei:

Eu: Não, eu não posso estar grávida daquele ser asqueroso ! 
Anny: Você tem que assumir oque faz Vallentina. Eu por exemplo, tive que assumir a Francielly. Não me arrependo, mas que eu poderia ter controlado o meu desejo, eu poderia.
Eu: Não, eu não fiz nada, eu... eu, fui forçada a fazer.
Anny: Como assim, quer dizer que... isso?
Eu: Sim, isso mesmo.
Anny: Calma Vallentina, estou aqui. Para oque der e vier. Tome -Pegou um teste de gravidez na bolsa e me deu- e faça. Vamos lá no banheiro, eu te ajudo.

Peguei e fomos. Chegamos lá, fiz e Anny me ajudou com tudo. Aquilo era complicado demais, e para minha infelicidade -no momento-, eu estava grávida. Vou confessar: Tive vontade de chorar, mais agradeci à Deus por aquela oportunidade. Até que eu fiquei mais feliz do que o esperado, aliás: Ficar grávida e ter uma família era meu sonho. Mas.... Que família era aquela? Família tem que ter um homem não? Não. Só se é família se você ama. Não importa se é de duas ou de duzentas pessoas. Se amar, é família. 


Eu: Preciso ligar para a Jú! - Peguei o celular e esperei ela tender.- Jú, olha, passa aqui quando der, tá?
Tina: Tá bom Tina, vou só terminar essa tatuagem, e fazer mais duas. Aí meu turno acaba e eu passo por aí. Na verdade, já iria passar mesmo. Beijos, vou esperar ansiosíssima!
Eu: Beijos. esperarei - Sorri, desliguei.


Os Dois Lados do Veneno - Capítulo 2

Por volta das 21:00, resolvi sair par comer, estava morta de fome. Ao chegar ao restaurante, me sentei à uma mesa e pedi macarronada. Ao terminar de comer, com os olhos pouco inchados por chorar a tarde inteira,  resolvi ir a uma praça deserta para esfriar a cabeça - Má ideia- Ao andar um pouco e chegar, me sentei a um banco e fiquei meia hora por lá. Quando ía me levantando para ir -Tarde demais-, veio até mim um sujeito estranho, com jeito malandro e falou:

Homem de preto: Que há, princesa?- Sorriu debochadamente
Eu: 
Com licença, estou de saída.- Disfarcei e assustada tentei correr.Homem de preto: Tá apressadinha meu anjo, vá agora não, tenho uma surpresinha! - Exclamou e me agarrou, me levando para um beco vazio e abandonado. 

Gritei e tentei me afastar dele. Já era, ele me deu uma pancada na cabeça e me deu um beijo no pescoço. Rasgou a minha roupa e eu não podia fazer nada, não conseguia me mexer, só conseguia ver e tentava gritar, mas apenas balbuciava qualquer coisa. Vi ele fazer tudo aquilo, e já no fim, senti uma dor profunda e desmaiei. Retomei meus sentidos, devia ser umas 5:00, aonde estava eu desmaiada e coberta de sangue pelo corpo. Levantei a mão tatuada repleta de sangue e nada falei. Recolhi oque sobrava de minhas roupas e tentei me cobrir - Não deu-. Corri nua para a casa. Ninguém me viu, estava cedo demais e escuro ainda. Ao chegar em casa, entrei na banheira e tentei me afogar -nada- , tentei mais uma vez -nada- e então, finalmente eu chorei. Chorei ao ver oque ele tinha feito em mim. Chorei ao lembrar de como eu era, chorei ao lembrar de que naquele momento eu tinha sido fraca e de como eu estava chorando. Aquilo, estava sendo horrível. Um sentimento de culpa estava dentro de mim. Peguei uma espécie de lâmina e me cortei. Cortei o pulso que não estava tatuado. Se doeu? Sim, e muito. O que eu não entedia, é como que eu tinha coragem para me cortar e não para não chorar. Naquela hora, tudo estava complicado. Eu dormi naquela banheira, quando parei de me cortar e apenas fiquei vendo o sangue sair. Não vi a hora que era, só percebi que quando acordei, já devia ser horário de almoço. Oque me importava que horário era? Nada mais fazia sentido pra mim, eu tinha vontade de morrer e de morrer, eu mais do que tinha vontade. Mergulhei meus Dreads na água, quase acabei com eles, mas eu disse quase. Quando me levantei, retomei a pegar a lâmina e cortei minha perna. Nela, eu escrevi "Sorry" (desculpa). Acho que era a Deus que eu estava escrevendo aquilo. A quem mais eu deveria me desculpar? Pois é, ninguém além de Deus e de mim mesma.

Ao terminar aquela estupidez, saí da banheira repleta de sangue e fui tomar uma ducha. Me limpei, me lavei, me purifiquei. Saindo de lá, coloquei um conjunto preto, que tampava meus pulsos sem machucá-los e uma calça pouco apertada, que tinha como defeito que machucava muito meus cortes na perna. Ao terminar, liguei desesperadamente pra Jú:

 Eu: Alô amiga, é a Valentina.
Juliana: Oi Tina, tudo bem?
Eu: Jú, sem enrolação, corre pra cá! Preciso de você!
Juliana: Mas Tina,...
Eu: Me espera, eu tô aí perto, daqui a 45 minutos eu chego. - Ela desliga.
Nunca tinha gritado assim com ninguém. Quando desliguei, percebi que a vizinha da frente que aparentava ter a minha idade, sorriu para mim, e eu acenei sem nenhum sorriso. Vagarosamente, me entupi de maquiagem para que ela não percebesse meu rosto inchado e machucado. Quando a campainha tocou, eu percebi que o sangue estava tomando conta da minha perna e manchando a calça. -Merda!- Ouvi:

Pela campainha: 
Tina, é a Jú, tá acontecendo alguma coisa?
Eu: Não Jú, pode entrar, eu tô no banheiro, me espera aí na sala!
Corri para o banheiro e troquei a calça tomada pelo sangue. Dessa vez, coloquei uma mais apertada, pois assim, faria o sangue parar. -Pensamento falho- saí do banheiro e forcei um sorriso falso para a Juliana. Jú, como me conhecia mais do que ninguém, falou:

Juliana: Tina, que maquiagem é essa na tua cara? Você odeia maquiagem. E porque você gritou comigo daquele jeito no celular? Eu tô preocupada Valentina, você não vai falar nada não? Porque você não para de olhar pro chão ? Valentina Casabella, me responde, olha pra mim!- Gritava Juliana.
Eu: 
Eu, eu... Jú, eu preciso te contar uma coisa. Uma coisa terrível. Eu, eu... eu fui abusada !- disse, quase chorando.- Foi ontem, quer dizer foi de ontem pra hoje, eu... eu fui abusada por um cara em uma praça a noite, ele me obrigou a fazer aquilo tudo, eu não queria fazer nada, e você sabe, eu nunca namorei, pois nunca quis me apegar a ninguém para não sofrer, mas, mas eu to sofrendo muito mais agora, eu preciso de uma amiga para desabafar, eu preciso de você aqui, eu preciso de alguém para poder contar oque eu to sentindo. Eu preciso desabafar.

Juliana, ao olhar para baixo, fez uma cara de espanto e gritou.

Juliana: Tina, as suas pernas estão sangrando muito!

Fingi que não me importava - e mais uma vez, menti ao pensar-. Olhei para  Jú, não sabia se ela estava se preocupando mais com a minha perna ou com oque havia acontecido. Ela estava nervosa, não sabia oque falar, e então, desesperada  ela gritou.

Juliana: Tina, senta aqui e tira as calças agora!

Não pude fazer nada, se não obedecer. E ao ver o estado em que estava minha perna, Jú ligou para a sua mãe que estava em Califórnia, e como era médica, poderia ajudar sem causar muito alvoroço com os meus pais. Afinal, eles não saberiam. Não saberia, se ninguém contasse.

Juliana: Meu deus, oque você fez aí Valentina Casabella ?- Gritou Jú, apavorada com oque vira.
Eu: Eu me cortei. - Respondi.
Juliana: E é só isso que você me diz? Simplesmente um " Eu me cortei"?

Eu: Não, eu também cortei meus pulsos.-Amostrei levantando a manga da camisa que também já estava ensopada de sangue, só que por a camisa ser preta, não estava a amostra.


Juliana, neste momento, já não sabia oque dizer. Simplesmente dava forças, como "Vai melhorar amiga, minha mãe ta a caminho... depois isso passa, você esquece.", e naquele momento, parecia que meu mundo iria desabar, só se passava pela minha cabeça, todos aqueles momentos constrangedores, de fraquesa, em que eu não pude ser mais forte do que um homem. Do que eu não pude ser mais forte do que uma lâmina. Do que eu não pude lutar, para me recuperar de tudo aquilo. A cada momento que ía se passando, tudo vinha em minha cabeça, como lembranças atormentadoras, aonde eu não podia fazer nada, para sair daquele poço de tristeza. Sim, aquilo era um poço. Um poço da vida, e como em um dia, você pode estar em cima do poço, no outro você pode estar lá em baixo, assim em um dia, você pode não sair dali, a profundidade do poço, depende. Depende de como você alimenta e cuida daquele poço. O poço, são os seus medos, que um dia podem se concretizar, mais você pode reverter toda aquela situação, depende de como você alimenta seus medos. O poço, podia ser pequeno, mais eu fui alimentando, dando corda para aquela dor, e aquele sofrimento, assim ele foi crescendo e crescendo, até se tornar um poço grande, aonde já estava possuindo mais de 3 metros. 3 metros de medo. 3 metros de solidão. 3 metros difíceis de sair. E foi percebendo essa dificuldade, que eu percebi como já estava entregue à aquela depressão, que começou através de uma noite. Uma noite de meu aniversário. Uma noite, em que um homem, se aproveitou de minha fraqueza de um modo muito brusco.  Uma noite, na qual nunca me esquecerei. Quando estava eu, pensando nisso tudo, vi-me perdendo muito sangue, e então, desmaiei.


...

Os Dois lados do Veneno - Capítulo 1


Hoje, acordei bem ansiosa para o dia de amanhã. Não é todo dia que eu tenho uma boa notícia como essa. Me mudar. Me mudar para a casa dos meus sonhos. Essa sensação é tão boa ! Nunca me senti assim antes, nunca me senti tão viva, tão esperançosa como hoje. Amanhã, no dia em que completo 22 anos, me mudo para uma cidade vizinha daqui, da casa dos meus pais. Não é oque eles querem que eu faça, mas eu quero assim, eu quero assim pois sei que é o melhor pra mim. Lá, eu começo a trabalhar e posso até estudar alguma coisa para não ficar muito parada. Parar no tempo, é uma das últimas coisas que eu quero pra mim. Parar no tempo como minha mãe parou, eu não quero mesmo. Meu sonho agora, é me tornar alguém. Quero crescer no mercado de trabalho, mas não quero crescer muito. Nunca gostei de sobressair mais que os outros. Acho que quando isso acontece com as pessoas, elas se tornam justamente aquilo que um dia disseram que não se tornariam. Elas deixam a ingenuidade delas, parece que a soberbosidade começa a crescer, a humildade acaba, e elas simplesmente crescem o olho, e se tornam pessoas diferentes.
Agora, estou indo ao shopping para fazer uma tatuagem. Não uma tatuagem qualquer, mas uma tatuagem que significará a minha dependência, a tatuagem que significará a minha vida.

Minha mãe: Filha, vamos?! Estou te esperando aqui em baixo.
Eu: Tô indo mãe, vou só pegar a minha bolsa. - Disse caminhando em direção a bolsa pronta para descer.
Minha mãe: 
Se nós nos atrasarmos, a culpa será apenas sua. - Resmungou, me olhando descer lentamente a escada. 
Fiquei quieta. Apenas ouviu as reclamações dela que só cessaram meia hora depois, quando estávamos entrando na loja "Tatuagens&Piercings". Ao entrarmos, a moça que parecia aborrecida atendeu-nos:

Moça: Posso ajudar as princesas?
Eu: Sim, gostaria de fazer uma tatuagem circundando o meu pulso, com algo escrito delicada e brevemente.
A moça fez sinal positivo com a cabeça e me chamou para uma espécie de quartinho improvisado. Ao entrar, fiquei um pouco nervosa e desconfortável, mas ao ouvir a doce voz da moça, fui me tranquilizando e obedecendo as suas ordens. Expliquei a ela como era a tatuagem, e ela simplesmente fez. Demorou uns 20 minutos. 20 minutos de muita dor. Não demonstrei nadinha, mas a minha vontade era de arrancar aquilo tudo e ir embora correndo e gritando. Superei. Mais uma vez, eu fui forte. Ao terminar, adorei como ficou. Pedi a ela para escrever a palavra "AMORE" com tudo maiúsculo. Não sei porque eu escrevi isso, eu só senti que aquilo que eu realmente deveria escrever. Quando minha mãe viu, fez uma cara de poucos amigos e eu sorri. Paguei e fomos embora.

Quando chegamos em casa, fui para o meu quarto e vi como tinha ficado. Aquilo, realmente eu tinha gostado. Nada forçado e nada feio. Nada feminino e nada masculino. Nada assim e nada assado. Ficou perfeitamente do jeito que eu imaginava, se não um pouco melhor. Sentei-me na cama e peguei meu celular dentro da bolsa que eu havia jogado no chão do canto do meu quarto. Liguei para a Juliana. Juliana era minha única amiga, que aliás, minha mãe não gostava dela por ter tatuagens e piercings tomados pelo corpo. Conversei com ela durante horas, até que ouvi meu pai me chamar:

Pai:
Tina, desça aqui, por favor.
Eu: Sim, papai. Já desço.
Desliguei o celular, guardei e assim desci.
 Pai: Já está com tudo preparado para amanhã, meu anjo?- Perguntou ele se referindo a viajem de Califórnia à cidade vizinha.
Eu: - Sim papai, está tudo empacotado, falta só descer com as caixas para o seu carro, e na madrugada partir. - Respondi.
Pai: - Sim querida. Venha comigo, me ajudar a descer com os pacotes. - Disse ele com os olhos lacrimejando.

Descemos com todas as caixas e depois jantamos. Mamãe não falava nada, só balançava a cabeça e dramática como era, clamava o nome de Deus e falava que não conseguiria sobreviver sem o seu único "bebê". Eu como sempre, não falava nada. Apenas disfarçava, e mudava de assunto, afinal, minha decisão já estava tomada, e era aquilo que eu queria para a minha vida. E como a Jú já tinha me dado um conselho: "Não liga muito pro que tua mãe fala, liga pro que ela demonstra em seu olhar". Resolvi seguir, e ao olhar os olhos de minha mãe, ela rapidamente desviou, pois sabia que se eu visse, ela estaria dando Graças por eu estar indo. Aliás, era uma fase da minha vida em que eu tinha de passar. Ao acabar a janta, subi para o meu quarto, aonde só me restava poucas coisas no banheiro e um colchão um pouco rasgado que ninguém usava fazia tempo. Lá, eu fui ao banheiro e como Califórnia é frio, tomei uma ducha bem rápida, me vesti, escovei os dentes, ajeitei os Dreads do cabelo e deitei com o fone de ouvido. Dormi ouvindo música, e aliás, dormi muito ansiosa! Às 4:00, acordei e rapidamente comi algo e me arrumei. Desci e me deparei com meu pai, que já me esperava para podermos ir. Dei um beijo em mamãe e fomos. Já dentro do carro, olhei quase chorando para a minha ex-casa que quase não dava para ver nada por conta do escuro que a madrugada causava. Dormi dentro do carro de papai e só acordei quando estávamos em frente a minha casa. Olhei para o papai e sorri. Papai retribui o sorriso e com os olhos molhados de lágrimas, me deu um beijo, me ajudou com os pacotes da mudança, e foi sem nem dizer uma palavra. Antes dele ir, olhou profundamente minha tatuagem. Nunca esquecerei daquele olhar. O olhar mais sincero que já vi! Ao entrar na minha casa, chorei. Chorei sozinha por horas e horas. Não sei de onde vinham aquelas lágrimas, eram estranhas, sei que de felicidade não eram, porém de tristeza também não. Lá para as 10:00, eu parei de chorar e arrumei a casa, ajeitei tudinho ! A casa, era bastante espaçosa para mim. Ali, haviam 3 quartos. 2 desnecessários, pois só usaria um. Logo após, tomei um banho e liguei para a casa de mamãe. Ela atendeu. Disse que estava bem (menti) ela disse que também estava (uma dúvida que sempre levarei comigo) e papai já havia chegado. Depois de pouco conversar com mamãe, desliguei. O resto do dia, foi deprimente, ninguém havia lembrado do meu aniversário.